terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Mal entendidos étnicos

Meu pai é mecânico de moto, ele possui uma loja de acessórios e uma oficina de motos, porque eu estou dizendo isso? Você já vai entender. Outro dia aconteceu uma coisa interessante, porém não tão raro. Estava em casa ocupado fazendo nada dia 21 de janeiro, eram 14hs20min, meu pai me ligou dizendo que precisava ir ao banco, na verdade eram dois bancos, para ganhar tempo eu iria em um enquanto ele iria ao outro. Meu pai trabalha de bermuda e camiseta, e uma sandália estilo Lampião do século XXI. Resolveu que iríamos de moto para ir mais rápido, pegou uma Titan 99 de cor cinza e partimos. Na volta do banco paramos ao lado de um Corolla no semáforo, Corolla é o carro de status mais barato do mercado, adorado por nove entre dez classes-médias, as janelas estavam semi-abertas e lá dentro uma jovem senhora classe média falava animadamente no celular, a conversa estava boa já que demorou um certo tempo para notar nossa presença ameaçadora. Quando nos percebeu ao seu lado fechou o vidro desesperadamente, engoliu em seco, soltou o celular. Lembrei-me da cena do Jurassic Park na hora que o Tiranossauro Rex se aproxima do carro e a menina branca se desespera tentando fechar o vidro, a câmera foca seu olhar de desespero, o monstro pré-histórico se aproxima com fome de sangue e vira o carro de cabeça para baixo. Meu pai é novo tem apenas 42 anos, chama-lo de pré-histórico é exagero. Alto eu sou mais me chamar de Tiranossauro Rex é outro grande exagero. Meu pai começou a rir e eu também. Não sabia que a minha roupa de loja de departamentos estava tão batida assim! Acabei de ler um livro chamado Corpo e alma, é uma pesquisa de campo, uma observação participante, o autor Loïc Wacquant entrou no mundo do Box, por três anos estudou, gravou e fez anotações e, posteriormente, se tornou um deles. O clube de Box ficava na divisão de um bairro de brancos bem abastados e um bairro negro e pobre de Chicago. Havia uma rua de acesso ao bairro negro que eles eram proibidos de passar. Eles representavam uma ameaça para os moradores do outro bairro. Não estou condenando por tomar algumas medidas de segurança não, seus medos tem fundamentos. Mas o que facilmente se nota no livro é a marginalização sem conhecimento. Em comentários dos pesquisados era freqüente a reclamação de que eram tratados como leprosos, como se tivessem febre da galinha amarela e aidética. Havia um dos freqüentadores do clube, conhecidos como Gyns, que morava a mais de dois anos em um prédio na rua da divisão dos bairros, que nunca havia falado com nenhum dos moradores porque se o vêem fecham as portas andam mais rápido na rua. Essa marginalização que fazemos com as pessoas não é necessariamente uma decisão, na verdade o mundo nos impôs. O outro é, em primeiro lugar, uma ameaça a minha paz. Todos somos o mal em potencial. Eu preciso urgentemente me proteger do que não conheço. Meu pai e eu não nos sentimos ofendidos com a ação da bela jovem, porque se tivéssemos no Corolla nossa ação seria a mesma. Estávamos de capacete em uma moto relativamente velha, com roupas que não haviam sido indicadas por Gloria Kallil, (Alô, Chics!). O que o livro me ensinou é que as coisas nem sempre são assim como pensamos. O problema é a nossa necessidade de classificar tudo e todos. Eu preciso por segurança saber onde você está na sociedade. Você é rico, classe média, pobre, emergente até quando, é ladrão, assassino, petista? Precisamos, assim como fazer as necessidades, nos proteger nos nossos pré-conhecimentos de mundo. O que vemos na TV nos assusta, o que ouvimos nos assusta, mudam nossos hábitos. Tememos que o que aconteceu com outros, as vezes com tanta distancia de nós, aconteça conosco. Minha mãe tirou a minha rede, aminha adorada e preguiçosa rede, há uns anos porque ficou sabendo de uma historia de um menino que se acidentou na rede e veio a falecer, “mãe quem falou que eu não posso ser atropelado hoje a tarde, por que você acha que eu vou morrer numa rede preguiçosa posta na área dos fundos?” Discriminação, racismo, preconceito está enraizado na cultura mundial, está em mim e em você. Não concorda? Você já disse frases do tipo: “Dia de preto”, “Vá falar assim com suas negas”, “trabalho de preto”, “minha pretinha”, “tinha que ser preto”. Tudo tem um fundo histórico, recente, da uma cultura que oprimi e escraviza. Não vou dizer nem de minorias, porque chamar negros no Brasil de minoria e uma tolice. Embrulha-me o estomago ouvir uma dessas frases de alguns que de negro só não tem a cor. Ouvem samba ou pagode, apreciam Jazz, comem feijoada, todos produtos “negros”. “Ahh, mas eu sou pardo, está escrito na minha certidão de nascimento”, o único ser pardo que eu conheço é um felino nojento da minha vizinha, espera que não leia nunca isso, mas se a senhora resolveu parar de tricotar para ler meu blog dona Anita, me perdoa. A muito tempo as questões raciais incomodam muitos, quer saber uma coisa? Você não é obrigado a gostar de ninguém, nem negro, nem “branco”, nem pardo (que é o termo mais preconceituoso do mundo, acho que foi criado para disfarçar a negritude racista), mas todos eles não só merecem como tem o direito de ter seu respeito. Nem se importa se gostam ou não deles, mas sabem que o respeito lhes é devido. Por isso e por outras coisas, que eu sempre digo você, e só você pode escolher como se portar. Não permita que a sua ignorância e mania de classificar tudo, incluindo as pessoas, governem o seu comportamento. Sejam racionais e ouçam o que diz a sua consciência, eu tenho certeza que lá no fundo você vai ouvir uma voz de um ser humano puro que conhece os direitos humanos de cor sem nunca o ter lido ou nunca ter ouvido falar de Eleonor Roosevelt.

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