terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sem juros, sem entrada e sem saída

Então é natal (e ano novo também, que seja feliz quem souber o que é o bem), já podemos ver os shoppings cheios de bons velhinhos que descartados do capitalismo selvagem vêem nessa data, após passar o ano cultivando uma simpática barba branca, a chance de ganhar um troquinho ouvindo, ou fingindo que ouve, crianças da classe média pedir a novidade que vai fazer um sucesso no condomínio. Classe média, porque os da classe baixa já nascem desconfiando do bom velhinho, e os da classe alta acreditam apenas no São Credicard.

Vocês têm reparado, sem dúvida que sim, o quanto a tecnologia do entretenimento tem crescido, e invadido de uma forma fantástica as nossas vidas. Há varias parafernálias sendo criada deixando até os japinhas mais convictos loucos de vontade de obter o mais depressa possível. Mesmo que não entendemos nem mesmo o que quer dizer o manual que está em coreano, japonês, em mandarin, latin, etc; menos em português, vendemos nossa vó para o pregão para adquiri-los e fazer inveja para os vizinhos, homem faz tudo por um elogio. Outro dia fui tentar arrumar o horário no som, ele se recusou a acertar o horário e quase cuspiu um CD na minha cara, peguei um manual e depois de lê-lo fui tentar arrumar, eram 8:00 hrs ficou 7:00hrs, se não acabar energia até o fim do horário de verão eu venci. Desejamos com tanta força obter coisas que nem nos preocupamos com as mudanças em nossas vidas que vem embutido neles, e só prestar atenção logo ao lado da taxa de juros do carne de 20 vezes sem entrada, nem saída só para abril, das casas Bahia você vai ver.

Dias atrás uma jovem senhora cujo nome não vou citar (minha tia, o nome dela tem as seguintes iniciais MA. RIA.), veio na mais desesperada reação comentar com alguém próximo a mim, que não sabia como ia fazer para pagar suas dividas em maio do ano que vem, cena parecida a essa só vi igual em novela da Thalia, uma chamada Marimar. Não, não, acho que foi Maria Mercedes, ou será Maria do bairro...??? Disse, depois de tentar me conter: “pera lá, em maio? Nós estamos em dezembro”. Me arrependi antes mesmo de voltar a respirar depois de ter falado, ela então piorou a lamentação como se tivesse narrando alguma estória grega, “eu só posso comprar assim, na prestação, é assim que pobre consegue as coisas”. Eu prossegui, eu e minha boca grande, “tia você está vendendo a sua tranqüilidade, vai terminar o ano preocupada não em como vai fazer para crescer em 2008, mas sim em como vai pagar a parcela de maio? Isso não faz sentido”, completei em voz mais alta do que eu queria.

Essa situação me fez pensar depois, em como a publicidade nos controla, lembre-se que ela só esta vendendo seu peixe, com aqueles comercias de Papai Noel em um estúdio cheio de isopor ralado fingindo que é neve, eu imagino nossos queridos e criativos publicitários chegando ao açougue e exigindo: “me vê uma tonelada de isopor ralado”. Observei que essa é uma realidade que todo brasileiro enfrenta, eu descobri em meu armário algumas coisas que eu comprei e que nem mesmo me lembro porque. Talvez você esteja dizendo “esse problema é só de quem não tem dinheiro, não é meu. Eu posso comprar e pagar”. Temos todos, deixa eu me incluir antes que a santa inquisição me queime, trabalhado em função dos juros do estado, e ainda temos a coragem de reclamar dos juros altos e aumentos que vira e mexe o governo nos presenteiam mês sim, mês também. Não temos, e nem nos preocupamos com isso, o mínimo conhecimento de economia, muito menos sabemos o que é CPMF, “Hãn? CPMF vai acabar? Que pena, eu nem sabia que existia”. Nessa época pegamos tudo o que não temos e investimos em coisas que não vão durar até julho do ano que vem, mas vamos trabalhar o próximo ano inteiro para pagar. Gastar é bom demais o problema e pagar, outro dia na fila de um banco, me divirto muito em filas, ouvi uma frase de um sujeito que já tinha ofendido até a geração de 2999 do gerente, porque não havia caixas suficientemente rápidas, ele banhou a nossa enorme ignorância com sua sabedoria onipotente declarando: “na hora de nos fazer comprar eles nos oferecem os produtos até no meio da rua, vão na nossa casa, nos infernizam com seu telemarketing e suas secretárias com voz de aeroporto, enchem nossa caixa de e-mail com propagandas, após ter nos feito escravos e nos ameaçar mensalmente de mandar nossos nomes para o SPC, SERASA, (FBI, KLB, RPM, SNZ, CSI MIAMI, CCE) ainda nos obrigam a ficar nas filas”, enquanto outro sujeito com cara de lenhador canadense tentava, sem sucesso, organizar a fila: “vamô lá gente, vamô colaborá, vamô organizá aí, se não a fila não anda”, eu pensei “nem com espora de Cowboy de Barretos essa fila anda”, tive que aplicar minha técnica de respiração tailandesa para não rir em voz alta.

Natal é bom, a comida do natal melhor ainda, algumas coisas só no natal mesmo, tipo uva passa. Ela passa lá por casa só essa época do ano, não que uva passa seja um artigo de luxo mas é que na correria do dia-a-dia não dá tempo de ficar enfrescalhando a comida. E os perus? Os coitados nascem sabendo que seu fim é em cima da mesa e com farofa de uva passa dentro. Eu me alimento com eles só em homenagem póstuma, já deram sua vida por mim afinal, ou melhor, para os lucros da Sadia. Semanas atrás vi um dos pronunciamentos ridículos do “dear Mr.”Bush que ele declarava ao lado de dois perus que aqueles eram de estimação e que seriam poupados da ceia de dia de ação de graças, eu preferia ser um peru pronto a morrer e ser deliciado em uma casa de família do que ser soldado no Iraque, mas isso é outra história.

E os amigos secretos, ocultos, chocolates, invisíveis... Na hora de chamar as pessoas para participar nenhuma objeção, só daquele que não tem muita grana afinal tem a parcela de maio para pagar, que logo protesta: “só se for amigo chocolate”. Após toda a parte burocrática, corre para as lojas Americanas mais próxima, e o pior, encontra alguém que está participando do mesmo mistério comprando o bombom mais barato, com toda razão, que o dele, na hora da revelação descobre que ele foi o felizardo que o sujeito tirou. Se for amigo secreto e você tirar seu chefe, ou alguém que você julgue ser importante, nada de dar uma caneta, por mais cara que possa ser vai ser sempre caneta.

Mas esse clima que nos invade essa época do ano realmente é inigualável, não pode ser comparada com nenhum produto, apenas pode ser traduzido em verdadeiro desejo de ver o outro feliz, e contribuir para isso. Se você não tem dinheiro para comprar algo que tenha a assinatura de um Hugo Boss, ou qualquer outra marca do tipo, não se mate, dê um livro, pode até ser usado, eu conheço um lugar onde você encontra ótimos livros com preços muito bons para presentear, se chama bazar do livro (juro pela vida dos perus que não estou ganhando nada para fazer propaganda), se não apenas faça um cartão de próprio punho, tenho certeza que vai ser o presente que vai marcar a vida de quem irá receber. Não adianta mandar mensagem automática pelo orkut, o tiro sai pela culatra, e a pessoa que recebe vai rapidamente apagar sem nem ter lido e vai pensar “eu não sou muito importante, me mandou uma mensagem automática”, é preferível que nem mande para depois não precisar se justificar, afinal quem recebe sabe quando é automática, vai dizer que você não sabia?

No mais... Abrace, beije, não use drogas, não desperdice água, lave as mãos antes de comer, e após ir ao banheiro, diga obrigado, por favor, não chute gatos, dê o lugar para velhinhos no ônibus, não esqueça o agasalho nunca, não fale com estranhos, vá pela sombra, e pela calçada, beba pouco, ou nada, e não faça nada do que venha se envergonhar depois.

Feliz natal.........

Um comentário:

Unknown disse...

oie.....
só passei pra deixar um oizinho.....tá bom....ah e dizer que vc é especial para mim....
bejim

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