terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Quem só espera nunca alcança
OFF
Janeiro, janeiro! Esse mês representa muita coisa boa, ou pelo menos deveria, para mim é o mês de fazer os planejamentos, rever algumas metas pessoais não alcançadas, mas o que mais me diverte nesse mês são as promoções e liquidações, acho impossível não rir de algumas coisas, os shoppings, por exemplo, se tornam o lugar mais cômico para mim, me divirto mais que me divertia com as piadas do Didi quando ele era engraçado. Saímos de nossas residências para passear e somente para olhar as vitrines então, os “funcionários do mês” nos convencem a comprar coisas que sabemos que não vamos usar, um amigo meu me contou que comprou uma camiseta por um preço de DVD falso, (banana está caro), só porque estava barato, ele não precisava de pulôver algum e nem era o número dele, “Douglas, eu comprei pensando que se não servisse para mim eu daria para meu irmão”, simplesmente hilário! Os corredores dos centros de compras ficam lotados de “classe média” que sem renda para fazer a terceira viagem parcelada para Disney vão disputar a tapa uma “promoçãozinha” para sentir que tirou vantagem da macro economia capitalista (Graças a Deus por ela), eles, os Shoppings, foram criados para classe média, sem dúvida, quem é rico não precisa parcelar nada, quem é pobre não pode comprar nem parcelando, o que me intriga é o tal do OFF que são colocados em tamanhos, cores e jeitos diversos nas vitrines, OFF lembra TV, o povo deve entender que as lojas estão prestes a desligar e correm para o shoppings para, literalmente, assistir as vitrines, só assistir, se a sua situação financeira for igual a minha é isso que você faz, assiste os OFFs com uma pontinha de inveja, de não poder adquirir nada mais que um ingresso para o cinema, quarta-feira claro. Uma vez minha mãe foi no shopping só pagar uma conta que já estava lhe dando dor de cabeça, voltou com algumas sacolas feliz da vida e sentindo o sentimento mais desejado pelo brasileiro o de tirar vantagem em algo, minha irmã, que foi a companheira de compras nesse fatídico dia, me contou de uma batalha épica que minha mãe travou com uma madame, “a mãe pegou um pé de um par de um sapato uma mulher pegou o outro pé, então as duas não soltavam ficaram rodeando a loja esperando que a qualquer momento alguém desistisse, no fim a mulher foi embora mais escondeu o sapato em algum lugar e não tinha funcionário do mês que o achasse” imaginei uma cena de bang-bang, cada uma de um lado em frente ao Saloon contam dez passos uma de costa para a outra e atiram, só que nesse caso uma desafiante desistiu, minha mãe venceu. Venceu? Com um sapato novo no pé e um carnê idem na bolsa. As promoções nos instigam os mais profundos instintos primitivos, nos tornamos irracionais, eu já cheguei ao cumulo de comprar uma calça que mal me servia, a usei durante um bom tempo, me apertava nas pernas e consequentemente nas partes glúteas, fui visitar um velho amigo de colégio usando as malditas ele até me tratou bem, como sempre, mas uma vez ou outra me olhava de um jeito que dava para conseguir decifrar a seguinte mensagem: “será que ele é?”, devo estar mal falado em toda comunidade por causa de um desejo de me parecer o cartaz da loja, na loja havia um cartaz com a foto de um modelo sorridente, feliz e bem sucedido, deu para perceber tudo isso só pela foto, usando a tal calça. Aquela aquisição infeliz só representava meu desejo de ser perfeito, para me parecer com aquele modelo precisaria de algumas plásticas, um regime a base de uma folha de alface por semana tirando a parte gorda que uma alface comum possui, e dois copos de água por dia, fora ficar branco, se o Michael pôde eu também posso, talvez até ligasse para ele perguntando o que fazer para me tornar alemão, com a idade que estou acho que não é mais perigoso tentar uma aproximação, se ele tentasse algo diria never
Tenho dó, e aqui vai minha solidariedade para todos os homens, porque convidar uma mulher para ir ao shopping representa muito mais do que: “vamos ao cinema?” elas entendem: “posso até te comprar algo depois do filme, levar para jantar, trocar sua lâmpada, consertar sua TV, levar sua irmã a apresentação de balé...” Não é mais possível esfregar os três salários mínimos* na cara de alguém para impressionar, é preciso se controlar, mas em frente a uma vitrine em janeiro é uma tentação pior que tentar resistir a uma coca-cola envenenada no meio do deserto do Saara meio dia após três dias de peregrinação, ufa, você sabe qual vai ser seu fim se beber, mas vamos negar uma necessidade tão básica que é a sede? Nesse caso nem que seja por possuir algo. Nem culpe os publicitários pelo endividamento que nós nos colocamos, já é ultrapassado fazer isso, é como culpar um advogado por ganhar uma causa em que o réu é incontestavelmente o culpado, ele só está fazendo seu trabalho. Priorize o que é mais importante para você, faça uma lista de necessidades, ou inutilidade que você tenha, ponha um limite por mês, “esse mês eu vou comprar apenas duas coisas que esteja fora do orçamento”, talvez te ajude, se não, pare de ir ao shopping, rasgue o talão de cheques (alguém ainda usa isso? Que ultrapassados!), quebre os cartões de credito, não veja TV, não leia outdoor, não compre Veja, que a cada uma página tem um anúncio, não ouça rádio, não entre na internet e se mude para o sul do Cazaquistão, ouvi falar que por lá não tem isso que a nossa civilização capitalista e sonhadora tem, compulsão por comprar sem precisar.
*A média de renda mensal do brasileiro.
Como nossos pais
Quem já não reclamou dos pais que atirem o primeiro mouse. Impossível passar pela adolescência e não encontrar mil defeitos neles, os problemas entre pais e filhos são tão antigos que parecem já estar resolvido, não é? Que nada tem se intensificado de uma cômica e assustadora forma. Belchior escreveu uma musica que foi eternizada na voz de Elis Regina, como nossos pais, “apesar te termos feito tudo, tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, a semelhança de vida que nossos pais tiveram na adolescência deles com a nossa e inacreditavelmente grande. Ouço frases incompreendidas de alguns adolescentes ao falar sobre os pais, que faz sentir dó dos pais que de vilões nada tem: “Os meus pais ficam invadindo meu espaço”, essa frase se parece clichê de cinema, “param atrás de mim quando estou no computador para ver o que estou fazendo, isso é invasão de privacidade” declarou uma adolescente cheia de razão em uma reportagem na TV. Essa reportagem tratava sobre a relação pais/filhos, e ela me fez pensar uma coisa, os pais estão perdidos, coitados! Por trás das reclamações desses filhos há pais desesperados em participar e proteger a vida dos filhos. Somos bombardeados com informações alarmantes sobre um mundo violento que infelizmente invade até as nossas casas, se essa violência está derrubando nossos muros altos e com cerca elétrica imagine como é do lado de fora? Os pais desejam segurança para os filhos, por isso eles lêem e-mails, orkut, tentam ouvir conversas no telefone, lêem diários, nem sei se alguém ainda tem isso, e fazem um sistema de espionagem superior ao da KGB para tentar livrar seus pimpolhos do mal do mundo. E vamos condenar esses pais porque, por querer que seus filhos estejam bem? Se você os condena ou não é pai ou é uma pedra de gelo insensível que não entende o quanto é desesperador saber que você não tem a onipotência de cuidar 24 horas desses que ainda não tem mecanismo de defesa, que por outro lado só conseguirão criar tais mecanismos batendo a cabeça, não literalmente, espero.
Esses pais, que são de uma geração que saiu de um regime como a ditadura onde nada podia, agora fingem “liberar geral”, a única coisa que conseguem é fingir por que se sentirão culpados se disser não, como são seres humanos modernos loucos em se livrar da culpa de impedir seus filhos de viver suas aventuras juvenis optam em contratar uma empresa de tecnologia de ponta em monitoramento por chip. Resolvido o problema de confiança, confiar desconfiando. Os pais absurdamente estão monitorando seus filhos através de presentes que oferecem aos seus rebentos, são relógios, celulares, cintos e, pasmem, brincos com chips capazes de monitorá-los a quilômetros de distancia. O mais cômico é que não só os filhos estão recebendo esse presentinho de grego mais também os genros. Então meu amigo, se sua sogra te deu um relógio ou um cinto de natal desconfie suas conversas e os lugares que você tem ido tem sido astutamente monitorado. Uma outra reportagem sobre o relacionamento pais/filhos tratava justamente sobre esse assunto. Os pais que não tem essa grana para desembolsar, os que moram lá nas periferias acabam impedindo de forma literal que seus filhos saiam de casa a noite. Como confiar em alguém que não confia em você? Uma mãe sensata declarou o seguinte “Monitorar alguém é uma prova de falta de confiança, se eu faço isso e eles descobrirem como poderei exigir confiança depois”. Já que todo mundo quer fazer parte de um “big brother” da vida então é aconselhável oferecer um milhão de reais para que eles fiquem em casa 24 horas por dia sendo monitorados. Uma outra adolescente reclamou do horário que tem que chegar em casa, “eu não posso passar das onze em nenhuma festa”, o que esses meninos podem fazer de madrugada que não farão a luz do sol? O medo é tão grande que os pais ficam perambulando pela casa enquanto os filhos não chegam, acreditando, sei lá porque motivo, que o fato deles estarem em pé dará livramento a seus filhos. Um outro protestou, “eles ficam me comparando com meus amigos, ‘olha o fulano fuma, sicrano bebe’, ai quando eu vou dizer que os pais de fulano deixam ele sair e não pega no pé eles dizem ‘mas eu não quero saber do outro quero saber de você’ eu não entendo”. Nem os próprios pais entendem. Comparação é uma arma usada ardilosamente pelos pais desde o período pré-embrionário mundial, é terrível ser comparado, mas é inevitável não comparar, provavelmente esses garotos usarão essas armas no futuro com seus filhos que terão outros problemas. Os adolescentes de hoje se esquecem que são filhos de um adolescente de ontem que conhece muito bem como é essa fase, sabe da impulsividade que governa os nossos pensamentos, emoções e ações. Mais o que mais me chamou a atenção nessa reportagem foi uma frase de uma menina que reclamava que a mãe ficava de trás dela no computador perguntando o que quer dizer, por exemplo, “VC” e outros códigos da Net, e ainda continuou dizendo que a mãe fica reclamando que ela não tinha paciência de ensinar como mexer no computador, ler gírias cibernéticas entre outras coisas. A repórter Babi Xavier perguntou o seguinte: “Mas vocês tem paciência de explicar?” “Não”, foi a resposta unânime. O que está acontecendo? Eles exigem respeito, espaço, confiança e não se dispõe a gastar um tempo, que deveria ser de convivência fraterna, para ensinar a entende-los, que oportunidades que eles perdem de se fazerem entendidos por esses pais. Chega um tempo em que os papeis são invertidos, quem ensinou quer aprender, quando chega a hora de retribuir a comida na hora, roupa limpa e passada no armário, os R$ 20,00 para o cinema é hora de entender que, só para citar Renato Russo, eles são crianças como nós, que nada conhecem desse mundo que gira em um ritmo tão frenético que só a nossa juventude é capaz de entender, por isso paciência, tenho certeza que foi muito mais difícil acordar as 3 horas da manhã com uma criança chorando que mais parecia uma sirene de bombeiro correndo para salvar o gato de uma árvore de uma cidade do interior do Mississipi e, essa criança com a frauda recheada do produto final da digestão, do que parar 10 minutos para ensinar o nosso palavreado “internetez”, fiquei com o coração apertado tentando lembrar se algum dia já tinha me mostrado impaciente com meus pais, tive vontade de pega-los no colo e ensina-los que as coisas hoje funcionam um pouco diferente do mundo que um dia viveram, mesmo que fosse inútil, pelo menos estariam me ouvindo e eu a eles. Paciência!!!Geração da comunicação muda
Já era o tempo que uma marca de refrigerante nomeava uma geração, geração coca cola, com Justin, Beyonce, Nx zero, Sandy&Junior, etc. (que desatualizado que eu sou não é, eles nem existem mais) A disputa fica até desonesta para a Coca, coitada! O máximo que pode fazer é tentar associar seu nome com um desses artistas e patrocinador um de seus “MegaShows”.
Os artistas populares sempre influenciaram a vida das pessoas, a música tem uma força maior do que simplesmente uma manifestação artística, chega à onipotência de ditar comportamento.
Com a invenção de micro aparelhos de armazenamento infinito de músicas você leva suas mil músicas preferidas da última semana, para onde quer que você vá, esses aparelhos “ultra-moderninhos” te faz sentir um dinossauro, homens da caverna, enquanto você não adquirir um. Eles nos proporcionam uma comodidade que vai além de uma simples forma de ouvir música, trás uma mudança significativa em nossas vidas, para o bem e para mal na mesma proporção. A indústria se aproveita da nossa necessidade de se sentir “por dentro”, e lança , quase que diariamente novidades irresistíveis até para os “anti-capitalismo”. Eu ainda nem comprei um MP1 já existe o MP6 (celular, computador de mão, armazena música, tira foto, GPS, peida...)
Uma solução para alguns impasses de família, “hoje quem escolhe o CD que vai tocar no carro sou eu”, nem precisa se preocupar, pegue o seu iPod, e ouça o que quiser no “aparelhinho”, enquanto seus pais ouvem Chitãozinho e Xororo ou Bee Gees. Outro dia uma amiga da minha família veio encolerizada me contar sobre uma conversa franca que havia tido, de mãe para filha dentro do carro, “Douglas, eu desliguei o som do carro e fiquei falando com ela sobre como eu era na escola, o primeiro beijo, o primeiro namorado, a viagem inesquecível, a bronca inesquecível, as fofocas da turma, ela resmungava algo de vez em quando, e eu continuava falando... Falei por mais de meia hora, quando cheguei em casa estava com a sensação do tipo “melhores amigas”, ela saiu do carro cantarolando algo num inglês do interior de Minas, alguma coisa do tipo ‘welcome to my world...’ Ela estava com um fone no ouvido. Descobri que durante esse tempo todo ela só não tinha me ouvido como tinha dado ouvido para uma pessoa que não fala o idioma dela e que nem sabe de sua existência”. A minha solução para essa jovem mãe, Dom Quixote de saias, foi que montasse uma banda, que cantasse em inglês de preferência, e escrevesse suas músicas com letras que narrassem suas aventuras juvenis, se não desse certo, paciência. Ela me fitou por alguns segundos que mais pareceram séculos, e por um momento eu temi pela minha vida. Juro que vi uma labareda de ódio saindo dos seus olhos.
A verdade é que a muito tempo os pais perderam um certo poder sobre a vida de seus filhos. Desde os Beatles, com seus ternos, a influência é visível e inevitável. Minha vó me contou que certa vez o meu pai passou um dia inteiro de terno em um dos calorosos churrascos de família cuiabana, só para ficar parecido com o John Lenon, o máximo que conseguiu foi uma desidratação e um desmaio de dez minutos, já que ele tinha o porte físico de um mosquito da dengue. Não devemos esquecer também o RPM e, segundo minha vó, “aquele maldito Paulo Ricardo”, revoltada, assim como toda sociedade brasileira dos anos 80, com o fato de seus filhos machos quererem adornar suas orelhas com pedras que só não passavam de imitação barata de jóias.
A necessidade do diferente, e de pertencer a outro grupo que não seja somente o familiar, ocorre geralmente na adolescência porque é nesse período que os jovens estão procurando um ponto de referência que não seja os pais, eles acham seus pais antiquados, e seus “heróis” se tornam os “donos” das músicas que ouvem ou seus amigos, natural que seja assim, mas quando isso se agrava ao ponto de pais e filhos se afastarem, revela um problema um pouco mais profundo. O que essas atitudes revelam é um problema enraizado, não é apenas um choque de gerações, mas um afastamento desses envolvidos. Os pais tratam os filhos como ETS que aterrissaram aqui em uma nave mãe (literalmente mãe), e que nada conhecem nesse planeta chamado: anos 70/80. Os filhos, por sua vez, tratam os pais como dinossauros que darwinianamente não evoluíram, apesar de ter vencido a guerra “os mais fortes sobrevivem”, e esqueceram de entrar
Quando acontece coisas do tipo que assistimos no mês de novembro de jovens de classe média se “pegando” sem propósito nenhum, nos chocamos. É intrigante como nos revoltamos com os acontecimentos quando são mostrados na TV, com coisas que justamente ocorre embaixo de nossos forros de PVC e/ou de placa de gesso. Seus rebentos, muito bem educados em escolas catolicamente tradicionais, vão para praças pintadas pela prefeitura, com um verde limão de gosto duvidoso, para se atracar como orangotangos disputando a fêmea e a bananeira mais próspera, uniformizados e com seus MP6, registram sua humanidade e coloca na internet para que nós os aplaudamos, só que isso choca a “liquida sociedade moderna” (um salve para o mano Bauman), e nos os reprovamos.
A sociedade (só para dar uma aliviada aos pais), faz cara de “o que eu fiz de errado”, e procuram os culpados sem resolver o problema.
Grandes sociólogos e antropólogos apontam que está na constituição da família a solução para uma sociedade menos violenta e onde haja uma abertura maior e favorável para a conversação, dos filhos aos pais, “já que o meio social é apenas uma extensão do que acontece em suas casas”, é o que dizia uma antiga professora, Tete.
Só porque os pais passaram brilhantina nos cabelos e usaram meias arrastão ouvindo mutantes não significa que tenham que se separar dos seus filhos que colocam piercing na língua se vestem de “boneca de vodu”, com uma franja de cachorro lulu que os cegam temporariamente, e choram quando ouvem emo core.
Que possamos nos sentar para a conversação como se faz em outras guerras semelhantes.
Sem juros, sem entrada e sem saída
Então é natal (e ano novo também, que seja feliz quem souber o que é o bem), já podemos ver os shoppings cheios de bons velhinhos que descartados do capitalismo selvagem vêem nessa data, após passar o ano cultivando uma simpática barba branca, a chance de ganhar um troquinho ouvindo, ou fingindo que ouve, crianças da classe média pedir a novidade que vai fazer um sucesso no condomínio. Classe média, porque os da classe baixa já nascem desconfiando do bom velhinho, e os da classe alta acreditam apenas no São Credicard.
Vocês têm reparado, sem dúvida que sim, o quanto a tecnologia do entretenimento tem crescido, e invadido de uma forma fantástica as nossas vidas. Há varias parafernálias sendo criada deixando até os japinhas mais convictos loucos de vontade de obter o mais depressa possível. Mesmo que não entendemos nem mesmo o que quer dizer o manual que está em coreano, japonês, em mandarin, latin, etc; menos em português, vendemos nossa vó para o pregão para adquiri-los e fazer inveja para os vizinhos, homem faz tudo por um elogio. Outro dia fui tentar arrumar o horário no som, ele se recusou a acertar o horário e quase cuspiu um CD na minha cara, peguei um manual e depois de lê-lo fui tentar arrumar, eram 8:00 hrs ficou 7:00hrs, se não acabar energia até o fim do horário de verão eu venci. Desejamos com tanta força obter coisas que nem nos preocupamos com as mudanças em nossas vidas que vem embutido neles, e só prestar atenção logo ao lado da taxa de juros do carne de 20 vezes sem entrada, nem saída só para abril, das casas Bahia você vai ver.
Dias atrás uma jovem senhora cujo nome não vou citar (minha tia, o nome dela tem as seguintes iniciais MA. RIA.), veio na mais desesperada reação comentar com alguém próximo a mim, que não sabia como ia fazer para pagar suas dividas em maio do ano que vem, cena parecida a essa só vi igual em novela da Thalia, uma chamada Marimar. Não, não, acho que foi Maria Mercedes, ou será Maria do bairro...??? Disse, depois de tentar me conter: “pera lá, em maio? Nós estamos em dezembro”. Me arrependi antes mesmo de voltar a respirar depois de ter falado, ela então piorou a lamentação como se tivesse narrando alguma estória grega, “eu só posso comprar assim, na prestação, é assim que pobre consegue as coisas”. Eu prossegui, eu e minha boca grande, “tia você está vendendo a sua tranqüilidade, vai terminar o ano preocupada não em como vai fazer para crescer em 2008, mas sim em como vai pagar a parcela de maio? Isso não faz sentido”, completei em voz mais alta do que eu queria.
Essa situação me fez pensar depois, em como a publicidade nos controla, lembre-se que ela só esta vendendo seu peixe, com aqueles comercias de Papai Noel em um estúdio cheio de isopor ralado fingindo que é neve, eu imagino nossos queridos e criativos publicitários chegando ao açougue e exigindo: “me vê uma tonelada de isopor ralado”. Observei que essa é uma realidade que todo brasileiro enfrenta, eu descobri em meu armário algumas coisas que eu comprei e que nem mesmo me lembro porque. Talvez você esteja dizendo “esse problema é só de quem não tem dinheiro, não é meu. Eu posso comprar e pagar”. Temos todos, deixa eu me incluir antes que a santa inquisição me queime, trabalhado em função dos juros do estado, e ainda temos a coragem de reclamar dos juros altos e aumentos que vira e mexe o governo nos presenteiam mês sim, mês também. Não temos, e nem nos preocupamos com isso, o mínimo conhecimento de economia, muito menos sabemos o que é CPMF, “Hãn? CPMF vai acabar? Que pena, eu nem sabia que existia”. Nessa época pegamos tudo o que não temos e investimos em coisas que não vão durar até julho do ano que vem, mas vamos trabalhar o próximo ano inteiro para pagar. Gastar é bom demais o problema e pagar, outro dia na fila de um banco, me divirto muito em filas, ouvi uma frase de um sujeito que já tinha ofendido até a geração de 2999 do gerente, porque não havia caixas suficientemente rápidas, ele banhou a nossa enorme ignorância com sua sabedoria onipotente declarando: “na hora de nos fazer comprar eles nos oferecem os produtos até no meio da rua, vão na nossa casa, nos infernizam com seu telemarketing e suas secretárias com voz de aeroporto, enchem nossa caixa de e-mail com propagandas, após ter nos feito escravos e nos ameaçar mensalmente de mandar nossos nomes para o SPC, SERASA, (FBI, KLB, RPM, SNZ, CSI MIAMI, CCE) ainda nos obrigam a ficar nas filas”, enquanto outro sujeito com cara de lenhador canadense tentava, sem sucesso, organizar a fila: “vamô lá gente, vamô colaborá, vamô organizá aí, se não a fila não anda”, eu pensei “nem com espora de Cowboy de Barretos essa fila anda”, tive que aplicar minha técnica de respiração tailandesa para não rir em voz alta.
Natal é bom, a comida do natal melhor ainda, algumas coisas só no natal mesmo, tipo uva passa. Ela passa lá por casa só essa época do ano, não que uva passa seja um artigo de luxo mas é que na correria do dia-a-dia não dá tempo de ficar enfrescalhando a comida. E os perus? Os coitados nascem sabendo que seu fim é em cima da mesa e com farofa de uva passa dentro. Eu me alimento com eles só em homenagem póstuma, já deram sua vida por mim afinal, ou melhor, para os lucros da Sadia. Semanas atrás vi um dos pronunciamentos ridículos do “dear Mr.”Bush que ele declarava ao lado de dois perus que aqueles eram de estimação e que seriam poupados da ceia de dia de ação de graças, eu preferia ser um peru pronto a morrer e ser deliciado em uma casa de família do que ser soldado no Iraque, mas isso é outra história.
E os amigos secretos, ocultos, chocolates, invisíveis... Na hora de chamar as pessoas para participar nenhuma objeção, só daquele que não tem muita grana afinal tem a parcela de maio para pagar, que logo protesta: “só se for amigo chocolate”. Após toda a parte burocrática, corre para as lojas Americanas mais próxima, e o pior, encontra alguém que está participando do mesmo mistério comprando o bombom mais barato, com toda razão, que o dele, na hora da revelação descobre que ele foi o felizardo que o sujeito tirou. Se for amigo secreto e você tirar seu chefe, ou alguém que você julgue ser importante, nada de dar uma caneta, por mais cara que possa ser vai ser sempre caneta.
Mas esse clima que nos invade essa época do ano realmente é inigualável, não pode ser comparada com nenhum produto, apenas pode ser traduzido em verdadeiro desejo de ver o outro feliz, e contribuir para isso. Se você não tem dinheiro para comprar algo que tenha a assinatura de um Hugo Boss, ou qualquer outra marca do tipo, não se mate, dê um livro, pode até ser usado, eu conheço um lugar onde você encontra ótimos livros com preços muito bons para presentear, se chama bazar do livro (juro pela vida dos perus que não estou ganhando nada para fazer propaganda), se não apenas faça um cartão de próprio punho, tenho certeza que vai ser o presente que vai marcar a vida de quem irá receber. Não adianta mandar mensagem automática pelo orkut, o tiro sai pela culatra, e a pessoa que recebe vai rapidamente apagar sem nem ter lido e vai pensar “eu não sou muito importante, me mandou uma mensagem automática”, é preferível que nem mande para depois não precisar se justificar, afinal quem recebe sabe quando é automática, vai dizer que você não sabia?
No mais... Abrace, beije, não use drogas, não desperdice água, lave as mãos antes de comer, e após ir ao banheiro, diga obrigado, por favor, não chute gatos, dê o lugar para velhinhos no ônibus, não esqueça o agasalho nunca, não fale com estranhos, vá pela sombra, e pela calçada, beba pouco, ou nada, e não faça nada do que venha se envergonhar depois.
Feliz natal.........

