sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Alento

"Quem diz que o Bolsa-Familia é assistencialismo nunca passou fome" Marina Silva Durante muitos anos fui dos que critiquei o Bolsa Família, Prouni, e tantos outros. (bobinho). Aos quatro cantos me sentindo "o intelectual" dizia que o bolsa família e afins eram programas assistencialistas que na verdade servia para calar a boca das pessoas... Mesmo, sendo um dos que um dia se beneficiou do programa anterior ao bolsa família, o bolsa escola. (mal agradecido). Dizia que o governo usou dessa estratégia para fidelizar o povo em votar nestes "Pais" e "mães" fajuntos de projetos sociais, que tinha mais por intuito mantê-los na mesma situação ao invés de promover crescimento. De que demonstrava com isso que essa historia de igualdade a todos era uma grande “bullshit” para enganar as ovelhinhas sonhadoras.Mas, nos anos de faculdade tive duas matérias fundamentais para o meu calar-a-boca, Antropologia e Psicologia social.

ATENÇÃO: QUALQUE SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA! (Peço permissão para viajar)

Imagine essa cena:

“Em um hospital como o Pronto de Socorro de Cuiabá, lotado de gente. Com os corredores cheios, pessoas caindo pelas janelas, filas enormes lá fora. Chega uma pessoa que tem dinheiro, teve oportunidades de estudar, de investir nela mesma, de crescer profissionalmente. Graças aos seus pais que trabalharam muito para t proporcionar lhe o mínimo que fosse. Puderam dar uma vida que tivesse nem que fossem apenas as refeições diárias. Digamos (isso é uma impossibilidade), essa pessoa procure o Pronto-Socorro com um dedo furado de agulha. Ela chega lá antes de todo mundo, às 5 da manhã, pega a primeira senha, assim que o digníssimo Doutor chegar, ela será a primeira a ser atendida. O Doutor chegará já, já... Após ter acordado ás 7 da manhã, (O médico) ter feito uma bela corridinha ao lado de seu personal Trainer no Parque natural que tem em seu belo condomínio de luxo. Ele chega lá no Pronto-Socorro dirigindo sua Santafé. Ele chega e vai direto para sua rotina de trabalho, ele é muito ético e ama o que escolheu como profissão. Se sente privilegiado de ter a chance de se formar naquilo que desejava. Dá uma olhada no movimento do hospital e já percebe que terá que trabalhar bastante naquele dia, “isso é típico”, pensa o nobre Doutor. Ele vai na direção daquele que ali estava desde às 5 da manhã, com a senha na mão e com um furo de agulha no dedo, é seu direito, afinal ele chegou mais cedo que todo mundo. Quando o médico se aproxima para começar a consulta recebe a noticia que alguém acaba de ser atropelado lá na frente do Hospital, é Maria e seu filho.

Naquele dia Maria tinha acordado também às 5 da manhã, iria levar o pequeno Gilson para consultar, o garoto vem apresentando problemas respiratórios desde que o tempo ficou tão seco, isso sempre acontece com os filhos de Maria nessa época do ano. È um horror, todos tossem sem parar, ficam com febre, e às vezes apresentam até desarranjo intestinal, (caganeira, para os mais íntimos). Mas, na noite anterior Gilson tinha tossido a noite toda, e chegou a ter alguns ataques que lembrava ataque asmático. A vontade de Maria era chegar lá no hospital primeiro, mas precisava preparar alguma coisa para as crianças comer antes de irem para a escola, arrumar as crianças literalmente. (cada um dos catarrentinhos. hehhe). Passar uniforme da escola, colocá-los para tomar banho. (a do “meio” sempre faz birra para tomar banho. “deve ter puxado o pai”, pensa Maria). E, nem se deixasse tudo como está Maria não conseguiria chegar ao hospital ás 5 da manhã, em seu bairro o ônibus só passa a partir das 6... Maria é uma empregada doméstica, ganha um salário mínimo que faz o que pode para sustentar os 3 filhos, Gilson de 4 anos, Camila de anos e Diogo de 9 anos, todos criados apenas por ela desde que o pai faleceu de Febre amarela, contraída em uma de suas viagens para trabalhar na plantação de Milho. Pois bem, Maria chega ao hospital e de longe vê o lugar lotado, ela soube naquele exato momento que não sairia de lá tão cedo. De alguma forma fica hipnotizada com o Hospital daquele jeito, pensa que algo aconteceu para estar tão lotado, devia ter ido na policlínica, ou ainda ter ido no postinho do bairro, mas lá nunca tem médico, se justifica Maria. Quando vai atravessar a avenida de frente ao hospital, ouve uma freada, Gilson e Maria são lançados metros de distância, os dois ficam gravemente ferido. Uma pessoa diz: Sorte ser aqui na frente! (sorte?!)

A pergunta que fica, qual é a prioridade agora? Respeitar as regras pré-estabelecidas? Ou levar em consideração o quesito gravidade, urgência?

A pessoa que chegou às 5 da manhã fica revoltadissima quando vê os enfermeiros passarem as pressas com macas em direção a rua. “eu cheguei aqui primeiro. Paguei um preço para estar nesse lugar... acordei cedo, tive que desmarcar compromissos seriíssimos, gastei combustível, deixei meus filhos sob responsabilidade da minha empregada e chega alguém e vai passar na minha frente? A direção desse Hospital é ruim, não é justa... De repente alguém diz que se trata de duas pessoas pobres. Ela diz: e dái, só porque é pobre vai atender com privilégios, devia tratar todo mundo igual. O médico vendo aquilo e tomado de tamanha compaixão, inclusive pela nobre pessoa que gritava a plenos pulmões o quão injusto era tal decisão por parte da direção de atender outro qualquer primeiro, pede para que ela adentre a UTI e julgue ela mesma se era injusto. Ela entra e, fica chocada com o que vê, de repente aquilo que dizia, pensava, sobre justiça, seus discurso sobre “igualdade” perde todo significado, ela se envergonha de um dia ter dito algo assim. Entende, até que enfim, o que dizia seu renomado professor de Direito, na faculdade. “ Para sermos justos, de fato, devemos tratar desiguais com desigualdade”

Na faculdade fiz estagio no CREAS, CENTRO DE REFERENCIA ESPECIALIZADOS DE ASSISTENCIA SOCIAL, entre atender menores infratores, (como esse termo me aborrece), crianças abusadas, lá mesmo nas instalações do CREAS, realizava visitas semanais com a equipe composta por uma Assistente Social e um Psicólogo, e fiquei impressionado com o que via, cenas que havia visto na TV, ali bem na minha frente. Um nível de pobreza que sabia que existia mas, que nunca tinha me permitido experienciar. Comecei a entender que há coisas urgentes, que não dá para esperar o governo criar oportunidades de crescimento para esses através de uma educação ou geração de emprego. Isso é sonho classe-média, isso é sonho. È preciso tomar atitudes, atitudes extremas, se dar dinheiro para que esses possam comer é assistencialismo, qual o nome que se dá para quando fazem ações para arrecadar alimentos e fazerem doações?

Julgava que ações voltadas a cotas, como as que tem em faculdade era desigualdade e era considerar a pessoa burra, incapaz. Pensamento lógico, certo? Errado. Esse país deve aos negros anos de escravidão e subjugo que se seguiram até mesmo depois da queridinha Princesa ter assinado o tratado de liberdade. Empurraram os negros para os campos, para os morros, porque o patrão, ex-dono de escravo se negou a tê-los como empregados, pagar pelo serviço que antes tinham de graça, em seus lugares foram colocados gente branca... agora, que vemos um governo tentar reparar esse erro, dizemos tantas bobagens sem base histórica, sem conhecimento de causa, agindo como rec-repete do GUGU. Não, eu não sou a favor do Fruto do Mar, (LULA), nunca votei e jamais votaria em tal ser, quem sabe se fosse o POLVO vidente? Apesar de considerar que fez um bom governo, mas, só lembrando que esse projetos sociais deram partida no governo FHC por intermédio de sua esposa, a antropóloga Ruth Cardoso.

O bem que o programa Bolsa Escola Fez a esse país só pode ser colhido agora, depois de mais de 10 anos de seu ponto de partida. Muitas crianças que não iriam freqüentar escola foram, pelos motivos certos ou errados, eles estavam na escola. Já que a condição mínima de permanência no programa era que os filhos estivessem matriculados e freqüentassem regularmente uma escola. A escola ficava responsável de controlar a freqüência dos alunos. Hoje há estudos sérios do impacto que causou na educação nessa primeira década do século XXI. (Google, Google já, como é bom Googlar!)

Passei a respeitar mais ainda o programa quando minha priminha, uma beneficiária perdeu o direito a bolsa, pois seus pais melhoraram de vida. Então, não assistencialismo é uma ponte, e como toda ponte serve apenas como uma passagem. Eles passaram, já não mais precisavam daquilo, poderiam andar por si mesmos em terra firme.

Alimenta teu cão e ele guardará tua casa; faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos.

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