sábado, 19 de dezembro de 2009
É só seguir o Caminho de Tijolos Amarelos
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A Maçã Podre
Cadê o afeto minha gente brasileira? Meu Deus, onde foi parar a tal da empatia?
Me irrito quando ouço pessoas cada vez mais críticas, precisas, técnicas, exigentes...
Eu tenho problema? Alguém corrobore isso!!! (ou pelo menos me diga o que signifique “corroborar”) Sério, juro pela vida do Faustão que eu tento, tento me controlar a não acessar a parte mais sarcástica de mim. Mas, não resisto.
Parece que todos se tornaram o Pedro de Lara, o jurado malvado do programa de calouros... fico abismado com a perda da capacidade de se “afetuar” ,pelas pessoas. Parece que víramos especialistas em tudo, queremos meter bedelho (caracólis, essa palavra é velha) em tudo. Temos opinião pra tudo, opinião critica sobre tudo e todos. Deve ser engraçado ouvir (ler) isso justamente de mim, porque se existe alguém assim esse sou eu, mas falo muito mais pra provocar riso do que de fato pra julgar...
As pessoas são “entendidas”, sabem de tudo... se sentem a Veja da semana, com tudo resumido, explicado, detalhado... tem até as páginas amarelas (isso é na Veja?), só não tem carta do leitor (reposta ao leitor ou coisa assim).
E porque esse assunto me ocorre?
Estou ouvindo o último CD de Jamie Cullum, The Persuit gosto muito de Jazz, e a mistura de Jazz, R&B e POP que ele faz é inédito. Gosto justamente por ser diferente, tem umas pegadas de piano que dão uma sofisticada nas músicas. Antes de ouvir o CD (conseguido via download), entrei na comunidade no Orkut dele pra ler criticas. Havia um “ser” reclamando do CD. Dizendo que estava, em suas palavras “Uma quase completa bosta”, primeiro não entendi essa frase, “quase e completa” pra explicar o mesma coisa é estranho. Penso que o querido crítico não se permitiu afetar pelas músicas, não se permitiu ouvir as letras, ele ouviu pra julgar. Se tornou um critico musical, “mas, essa batida eletrônica com aquela guitarra sei-que-lá, e essa música, não-sei-que, não (leia como o Daniel) “orna”. Uma banda/cantor sempre terão aquela obra que irão compará-la a todos os outros que virão, no caso do Jamie Cullum tem o anterior a esse Cd que é o Mind Trick, que o lançou à astro mundial, claro que sempre farão menção a esse CD, assim como tudo que Michael Jackson fez pós Thriller foi considerado mediano. Emoção, emoção pura. Se você for ouvir seus CDs verá que são tão bons quanto o primeiro, mas o primeiro não tinha embutido carga de expectativa e pressão, ele (o MJ), não tinha pretensões de ser o dono do álbum mais vendido da História, ele sabia que era algo novo, como seria recebido, não fazia idéia.
Afetuem-se e permitam afetuar-se. Você já passou por aquilo de gostar muito de um filme e no Oscar ele nem ser mencionado? Não é estranho que Amor Pra Recordar seja considerado o filme preferido de muita gente e ele nem ter sido lembrado pelos membros da Academia (acadimia), ou não ter tido uma bilheteria com um número sequer próximo à de seus espectadores em DVD?
Porque isso? (momento auto-entevista)
Porque não havia carga de afeto empregado. Agora quando chega a pessoa e diz (com voz fanha de garota enjoada) “O que você ainda não viu ApR?” Daí você se sente um idiota atrasado e vai assistir o filme e, gosta... (ou odeia de vez). (com voz de Zé Wilker) “Acho que comparado ao Cinema do leste europeu ou ao cinema pós-modernista guiando-se pelo meandro do Cult vs Trash, creio que está para além de um ultra POP descartável”, quem se importa com opiniões especialistas? As pessoas se permitiram sentir com o filme.
Estamos todos prontos, com o discurso na ponta da língua, ensaiado e decorado pra dar opinião, pra dar conselho, pra indicar caminhos, pra avaliar, dizer se gostou ou não gostou. Quando conseguimos nos colocar no lugar de alguém que recebe, algo presenteado aprendemos a receber melhor. Dar mais créditos antes de falar mal (por apenas falar). Tudo bem se não gostou disso ou daquilo, quando eu não gosto eu falo sobre isso, procuro sempre me colocar no lugar de quem fez. Oras, as pessoas são carregadas de emoção, e as coisas são avaliadas por afeto, aquilo que me permito ser afetado pelo que me é apresentado.
Essa semana toda teve apresentações de TCCs na Faculdade, a turma (moçadinha, a tchurma, um velho falando) que se forma agora em 2009. Haviam quase trinta trabalhos sendo apresentados, temas interessantíssimos. Dali via o nervosismo daqueles que iam se apresentar, imaginava o que se passava na cabeça deles. Vi gente chorar, vi gente gripando, com nariz escorrendo e voz rouca (do Donald), enfim. Me fez pensar como seria o meu “grande dia”. Cada um dentro de seus limites “nervosísticos”, apresentaram bem, uns em pé, outros sentados, enfim, como puderam/suportaram.
No terceiro dia, as turmas que não apresentaram se reuniram pra poder dizer sobre os temas, como havia compreendido e pra que falasse um pouco sobre a jornada de forma geral. Teve pessoas que disseram (voz fanha): “ah, acho que deveria né? ...exigir que falassem de pé, que expusessem seus trabalho de pé”. Marilia Pera-lá!!!
Pensei: “Estamos perdidos. Estou numa jornada de que mesmo? Porque se quem estuda psicologia não tem capacidade de empatia, de se colocar no lugar do outro, de contextualizar e afetuar-se, quem terá?”
Poxa vida, eles estavam apresentando um trabalho que durou meses pra ficar pronto. Pense como que foi fazer e, a pressão que é apresentar na frente de uma platéia como aquela? A pressão de ter parentes te assistindo, professores te avaliando... sua formação (carta de alforria ou desemprego) em jogo. Nada fácil!!! Agora porque não permitir que o sujeito sinta e se permita escolher como quiser ou puder apresentar, sentado ou não, é o seu trabalho que está ali. “ É que... Fica muito chato, blá, blá, blá, bla”
Penso assim também, prefiro trabalhos sendo expostos com a pessoa de pé. Mas, contextualizemos. Quer ser entretido? Vá ao circo. Ninguem precisa ser um showMan (or woman), pra apresentar um trabalho de conclusão de curso. Porque eu recebi da melhor forma os temas que assisti? (momento auto-entrevista)
Porque eram de amigos meus, cujo nervosismo eu partilhei, a cada palavra, cada suspiro nervoso e profundo eu dei junto. A quem não sentiu eu digo: sinto muito, só saberá quando chegar sua vez. Que possamos fazer esse exercício de empatia, que possamos nos colocar no lugar do outro, que não sejamos a maçã podre do cesto. Que encontremos dentro de nós o jurado bonzinho. Matemos o Pedro de Lara dentro de nós.

