terça-feira, 7 de julho de 2009

Infância

A infância é uma fase que quando nós saímos dela passamos o resto da vida tentando recuperá-la. É incrível, nós crescemos e vemos se aproximar de nós a responsabilidade de assumirmos as próprias escolhas. Ter que tomar decisões duras e, tomar uma decisão é abandonar outras milhares. Sei lá, penso que a fase do crescimento e amadurecimento é como o horário entre 17hs30min e 18hs30min, sabe, àquela hora estranha que não é nem tão tarde para acender a luz, mas o sol já não tem mais força para iluminar a casa. Fica uma penumbra estranha um sentimento de que esperamos que algo aconteça, porque temos mil possibilidades, mas ao mesmo tempo temos saudade do dia lindo que já se despede. Você se perde em seus papéis, se sente em construção sendo assim você não “é”, está de passagem por algo. Muito novo, e sem base financeira, para muitas coisas e velho para outras. Você tem que conciliar tantas pressões, para que o caminho errado não seja trilhado. E nós chegamos para onde nós estamos indo, não sei se me fiz compreender. A infância define quem somos, nossa visão de mundo estará sempre ligada ao que pudemos assimilar de nossa infância. Penso que a estrutura ofertada pelos nossos pais é fundamental para o processo de crescimento. E quanto mais você é amado pelos pais, mas facilmente você assume com saúde o papel de adulto, você abandona a infância porque a viveu. Quantos quando se vêem em situações tão difíceis, próprias da fase adulta, não desejou ser criança para sempre? Não desejou ser Peter-Pan? Michael Jackson desejou. Do fundo do coração dele, ele desejou. Ele sofreu as piores pressões que uma criança poderia sofrer. Era ofendido, humilhado, espancado pelo próprio pai minutos antes de entrar e entreter o mundo que o aplaudia. Cresceu associando aplausos com surras, elogios com criticas severas, entendendo o quanto era doloroso o preço da fama. Michael foi crescendo e colhendo frutos de um regime militar, penso que ele devia se sentir ambivalente quanto aos acontecimentos da infância. Enquanto deveria agradecer o pai por “ensiná-lo” a como ser estrela, tremia na mínima possibilidade de estar na presença do pai. Ele estava sendo condenado a permanecer criança. MJ viveu em um paradoxo. Transformou-se em uma lenda artística, no palco era incomparável, seguro, agressivo, dono da própria carreira. Na vida pessoal era inseguro, incomodado com a própria aparência, tímido. Tinha olhos tristes, olhos de criança sofrida, parecido com os olhos das crianças africanas que ajudou. As pessoas não compreendem, porque diferente de todos nós que tivemos muito bem definido as fases de crescimento, pelas séries da escola, pela estrutura “normal” do primeiro isso e depois aquilo. Ele não teve isso. Sempre teve adultos por perto para informá-lo que tinha que ser profissional, assumir uma posição adulta. Conquistou a doce liberdade infantil quando já tinha 20 e poucos anos ao assumir sua própria carreira. Mas, socialmente era exigido a assumir responsabilidades de sua idade real. Uma fase que ele não desejava alcançar sem que vivesse a que ele mais se encantava. Tinha medo de crescer, tinha medo de se tornar o pai. Tentava conciliar desejos infantis com sua idade real. E mesmo assim, trabalhou arduamente para que outras crianças pudessem desfrutar de uma infância tranqüila em que lhes fosse garantido uma base sólida para seu crescimento. Durante sua vida doou 300 milhões de dólares a causas humanitárias, entrando para o Guinnes Books como o artista POP que mais investiu em causas humanitárias, e militou por elas, inclusive no congresso americano. Escreveu canções tão lindas, com letras tão sensíveis que só poderiam ter sido compostas por alguém que amava o mundo. Ouçam Man in The mirror, Cry, Will you be there?, Heal the World, We are the world, Vocês entenderão o que estou dizendo. Este mesmo mundo que ele tanto amava foi cruel com ele. O acusou de coisas nojentas. Pedófilo, racista e tantas outras coisas. (http://a.abcnews.com/images/2020/Desiree_Vitiligo_080327_ms.jpg) O transformando, além de sua imagem assustadora que mudava a cada vídeo clipe, sua imagem em alguém doente, no pior sentido da palavra. Ignoraram sua música, ignoraram seu trabalho em prol dos menos favorecidos. Muito antes de falecer no dia 25/06, havia sido morto pela mídia. No dia de sua morte recebi a noticia quando estava de saída, no banho pude ouvir o anúncio ainda não confirmado até aquele momento. Pareceu tão absurdo que mal pude dar crédito, corri para internet e não havia de fato confirmação oficial. Dirigi-me para o destino de minha saída e, no caminho fui conversando com meu pai sobre ele. Senti-me estranho, sentindo falta de alguém nunca tive contato. Parecia que, de alguma forma, o mundo estava órfão. Fiquei envergonhado de mim mesmo por ter vontade de chorar. Cresci ouvindo MJ, lembro-me da 1°vez que ouvi Thriller, lembro que a 1° musica em inglês que compreendi o que o cantor dizia foi The girls is mine. Cheguei em casa e fui ouvir suas músicas. Percebi o quão forte era sua mensagem. Enquanto ouvia me peguei o imaginado ele de pele escura, achei estranho não poder associar sua voz com a “criatura” que se tornara. Entendi que na verdade aquele rosto era uma mascara de fuga. Ele estava protegido ali atrás, com olhos de alguém que de tanto ser atacado resolveu construir ao redor de si mesmo muros tão atos e seguros, mas ainda assim tão cercado, dali conseguia enviar mensagens do tipo, “Se você quer que o mundo seja um lugar melhor, dê uma olhada para você mesmo e faça a mudança” (Man in the mirror) Manteve consigo a esperança de uma criança, de que sempre pode haver melhores dias, de que os pais não ficariam bravos contigo durante muito tempo, que há sempre uma saída. Vamos lá, você sabe do que estou falando!!! Sua voz jamais poderá ser calada sua mensagem permanecera para sempre, porque suas músicas sempre serão fortes e vivas. Para mim MJ não é um ídolo, nem tão pouco um Rei, Jesus é único em minha vida, mas sem dúvida ele é o maior artista que o mundo jamais verá novamente. “Se você conhece seus sonhos você muda seu futuro”, ele conhecia os dele, e os realizou em vida, mas não pode mudar o futuro. Ele na verdade não morreu, ressuscitou, voltou ao topo das listas, e o mais importante a ser ouvido, e como todo gênio que deixa uma grande obra, se tornou eterno. (continuo a falar sobre infância no próximo texto, ficou incompleto, sei lá)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cachorro que é picado por cobra tem medo até de lingüiça

Às vezes me pego perguntando se vale a pena continuar acreditando no ser humano. Pense bem, as pessoas que você mais ama são as que possuem as ferramentas mais cortantes para te ferir. Possuem armas carregadas com a permissão da intimidade. São elas que sabem exatamente, pela permissão dada por você mesmo, como te ferir. Então, como confiar em alguém?

Gosto muito de uma filosofia, (gosto porque acho engraçado e, também, porque sempre imagino a cena. Quem assistiu o fantástico mundo de bob é bem mais inspirado), enfim, a filosofia diz assim: “Cachorro que foi picado por cobra tem medo até de lingüiça. (trema em lingüiça, isso é tão ano passado)

Vamos pensar um pouco. Copiei essa do Telecurso 2000. (senta que lá vem filosofia de fila de banco)

O cachorro tem medo daquilo que antes o impulsionava a se atrever a entrar na casa e puxar da mesa a sacola em que as lingüiças inocentemente descansavam. Meu cachorro, já falecido, Tigre fez isso algumas vezes com o frango que estavam atrasadamente descongelando na pia dos fundos, eu dizia para minha mãe: “é melhor ter o almoço atrasado do que perdê-lo para o Tigre”.

Olha só, ele (o cão metafórico) imaginou que a linda trança de carne era uma cobra que o havia picado tempos atrás. (hum, interessante. Fale me mais sobre isso. Lingüiça, né?)

Ele fez de uma experiência, uma porque no caso do cão foi picado uma vez só, a verdade absoluta. (se é verdade então é absoluta. Certo pleonasmo? Sei lá.)

Já dei varias mancadas com amigos, sou falastrão e já meti com a língua nos dentes. Machuquei pessoas com palavras, a diferença é que aprendi que a transparência é o segredo. E a transferência é um tesouro que as pessoas vão perdendo ao longo da vida. Eu assumo meu erro numa boa, admito que estou errado e me arrependo genuinamente. Demonstro através de ações que o que fiz tem de haver restituição. É fácil nos percebermos no papel da cobra.

Lembro-me uma vez que emprestei uns CDs de um amigo e acabei arranhando dois CDs. Compartilhei com um outro amigo sobre o acontecido, o Weverto que me disse o seguinte: “Douglas, (amo quando dizem meu nome no começo da frase a lição fica mais bonita, os milésimos de segundo que demoram na continuação da frase é mágico), já está arranhado, está feito. Não diga a ele (o dono dos CDs), que isso aconteceu, antes compre CDs novos e oferece a ele junto com os velhos (e arranhados) e ele decide o resto.

Weverto nem se lembra disso, certeza, mas isso me ensinou que há poder na restauração, na restituição. Não podia simplesmente devolver os CDs arranhados, por que provavelmente o dono não iria reclamar para mim, mas sem dúvida isso iria definir nossa relação. Eu seria transformado no “folgado” que arranha CDs.

Não há como desfazer erros, eles estão feitos. Assim como não há forma de se parar uma flecha lançada (à menos se você for o Jack Bauer), as palavras são como flechas, flechas que jamais retornam. Você tem uma escolha quanto as palavras, não lançá-las. Dirige-as antes a ti mesmo e vê se o que podem produzir é o efeito que você deseja.

Creio que um erro só pode ser reparado na admissão deste. Para isso é preciso parar de ignorar o elefante no meio da sala.

Digo tudo isto porque fui injustamente, não na visão de quem fez, expulso de um grupo de apresentação da faculdade. Sim, caros leitores (isso soa tão bem), eu fui expulso. Assim como expulsava o tigre de perto do frango, mas ele era mais esperto e se aproveitava dos momentos em que, ou o telefone tocava ou a vizinha vinha pedir açúcar para colocar no bolo que só não estava ainda no forno por falta de algumas colheres deste produto “canaviril” que revolucionou as padarias.

Enfim, me expulsaram porque, de fato, dei mancada. Faltei uma apresentação de um trabalho anterior. Mas antes que pudesse me justificar. (os motivos de minha falta jamais conhecerão). Colocaram-me para correr do grupo como se fosse um peso morto, me senti a mosca da bosta do cavalo do bandido da novela do SBT, ou seja, abaixo de barriga de cobra.

Não levaram em consideração nada, nem o fato de sermos amigos. Não haveria um jeito certo de expulsar alguém, mas merecia o direito a defesa, tomar uma decisão como essa, julgar e condenar alguém sem nem ouvi-la é cruel.

Criminosos repulsivos como pedófilos tem o direito a se defender, eu não tive. Fiquei triste por se tratar de uma decisão tomada por três pessoas, uma eu sei (SEI) que não gosta de mim, mas duas eu acreditava ser meus amigos.

Estou há um mês após isso ter ocorrido me perguntando: como confiar no ser humano? O que é perdão? Devo no dia seguinte dizer: E aí, tudo bem? Gimme Five, friends. Isso é perdão?

E a conclusão que chego é que você tende a acreditar assim como o cachorro evita as “saborosas lingüiças” da vida porque foi picado por uma cobra. (não estou comparando ninguém a cobra é só uma metáfora bobinha e totalmente reveladora, pelo menos para mim. (se é reveladora então é totalmente. Certo pleonasmo? Sei lá). Não é possível viver bem, ter boa relação pensando que tudo é cobra. O Homem é reflexo do amor de DEUS, não tem como amar um e ignorar o outro, eu amo a DEUS. Seria incoerente colocar todas as pessoas num só patamar. Por isso faço o exercício contrario aos pensamentos automáticos (isso é tão psicologia comportamental) de que todo Homem é mal, podem até ser, mas creio em mudanças. E quando escrevo coisas que são tão intimas quanto as que estão neste texto é isso que estou fazendo, crendo que essas palavras toquem alguém. Porque vivemos através do afeto, escrevemos nossos nomes na vida das pessoas, e porque fazer isso de forma negativa? Porque machucar as pessoas? As cicatrizes sempre estarão ali, o pensamento vai sempre tender a confusão de cobra e lingüiça.

Não tenho raiva do tigre, nunca o amaldiçoei por me levar o frango do almoço porque estava agindo exatamente como um cão agiria. Ele marcou minha infância, tenho saudades dele. Viveu 12 anos, mais da metade da minha vida. E quando ele se foi, eu o deixei ir, muito triste, mas eu o deixei ir. Eu havia perdoado.

Perdão é isso, deixar ir. E fazer de uma experiência ruim um livro de sabedoria. (nunca deixar o frango na pia nos fundo, o Tigre vai abocanhá-lo), não confundir atos isolados como determinações. Então para o cão perdoar seria entender que a cobra deve ir, deixar essa cobra é parar de confundi-la com lingüiça.

E quando esse cão voltar a se atrever entrar na casa e avançar sobre a sacola na mesa onde a lingüiça está dando sopa, ele estará demonstrando que perdoou... e o que a cobra tem a ver com isso? Nada, estava agindo exatamente como uma cobra agiria.

Tigre, saudades.
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