terça-feira, 7 de julho de 2009
Infância
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Cachorro que é picado por cobra tem medo até de lingüiça
Às vezes me pego perguntando se vale a pena continuar acreditando no ser humano. Pense bem, as pessoas que você mais ama são as que possuem as ferramentas mais cortantes para te ferir. Possuem armas carregadas com a permissão da intimidade. São elas que sabem exatamente, pela permissão dada por você mesmo, como te ferir. Então, como confiar em alguém?
Gosto muito de uma filosofia, (gosto porque acho engraçado e, também, porque sempre imagino a cena. Quem assistiu o fantástico mundo de bob é bem mais inspirado), enfim, a filosofia diz assim: “Cachorro que foi picado por cobra tem medo até de lingüiça. (trema em lingüiça, isso é tão ano passado)
Vamos pensar um pouco. Copiei essa do Telecurso 2000. (senta que lá vem filosofia de fila de banco)
O cachorro tem medo daquilo que antes o impulsionava a se atrever a entrar na casa e puxar da mesa a sacola em que as lingüiças inocentemente descansavam. Meu cachorro, já falecido, Tigre fez isso algumas vezes com o frango que estavam atrasadamente descongelando na pia dos fundos, eu dizia para minha mãe: “é melhor ter o almoço atrasado do que perdê-lo para o Tigre”.
Olha só, ele (o cão metafórico) imaginou que a linda trança de carne era uma cobra que o havia picado tempos atrás. (hum, interessante. Fale me mais sobre isso. Lingüiça, né?)
Ele fez de uma experiência, uma porque no caso do cão foi picado uma vez só, a verdade absoluta. (se é verdade então é absoluta. Certo pleonasmo? Sei lá.)
Já dei varias mancadas com amigos, sou falastrão e já meti com a língua nos dentes. Machuquei pessoas com palavras, a diferença é que aprendi que a transparência é o segredo. E a transferência é um tesouro que as pessoas vão perdendo ao longo da vida. Eu assumo meu erro numa boa, admito que estou errado e me arrependo genuinamente. Demonstro através de ações que o que fiz tem de haver restituição. É fácil nos percebermos no papel da cobra.
Lembro-me uma vez que emprestei uns CDs de um amigo e acabei arranhando dois CDs. Compartilhei com um outro amigo sobre o acontecido, o Weverto que me disse o seguinte: “Douglas, (amo quando dizem meu nome no começo da frase a lição fica mais bonita, os milésimos de segundo que demoram na continuação da frase é mágico), já está arranhado, está feito. Não diga a ele (o dono dos CDs), que isso aconteceu, antes compre CDs novos e oferece a ele junto com os velhos (e arranhados) e ele decide o resto.
Weverto nem se lembra disso, certeza, mas isso me ensinou que há poder na restauração, na restituição. Não podia simplesmente devolver os CDs arranhados, por que provavelmente o dono não iria reclamar para mim, mas sem dúvida isso iria definir nossa relação. Eu seria transformado no “folgado” que arranha CDs.
Não há como desfazer erros, eles estão feitos. Assim como não há forma de se parar uma flecha lançada (à menos se você for o Jack Bauer), as palavras são como flechas, flechas que jamais retornam. Você tem uma escolha quanto as palavras, não lançá-las. Dirige-as antes a ti mesmo e vê se o que podem produzir é o efeito que você deseja.
Creio que um erro só pode ser reparado na admissão deste. Para isso é preciso parar de ignorar o elefante no meio da sala.
Digo tudo isto porque fui injustamente, não na visão de quem fez, expulso de um grupo de apresentação da faculdade. Sim, caros leitores (isso soa tão bem), eu fui expulso. Assim como expulsava o tigre de perto do frango, mas ele era mais esperto e se aproveitava dos momentos em que, ou o telefone tocava ou a vizinha vinha pedir açúcar para colocar no bolo que só não estava ainda no forno por falta de algumas colheres deste produto “canaviril” que revolucionou as padarias.
Enfim, me expulsaram porque, de fato, dei mancada. Faltei uma apresentação de um trabalho anterior. Mas antes que pudesse me justificar. (os motivos de minha falta jamais conhecerão). Colocaram-me para correr do grupo como se fosse um peso morto, me senti a mosca da bosta do cavalo do bandido da novela do SBT, ou seja, abaixo de barriga de cobra.
Não levaram em consideração nada, nem o fato de sermos amigos. Não haveria um jeito certo de expulsar alguém, mas merecia o direito a defesa, tomar uma decisão como essa, julgar e condenar alguém sem nem ouvi-la é cruel.
Criminosos repulsivos como pedófilos tem o direito a se defender, eu não tive. Fiquei triste por se tratar de uma decisão tomada por três pessoas, uma eu sei (SEI) que não gosta de mim, mas duas eu acreditava ser meus amigos.
Estou há um mês após isso ter ocorrido me perguntando: como confiar no ser humano? O que é perdão? Devo no dia seguinte dizer: E aí, tudo bem? Gimme Five, friends. Isso é perdão?
E a conclusão que chego é que você tende a acreditar assim como o cachorro evita as “saborosas lingüiças” da vida porque foi picado por uma cobra. (não estou comparando ninguém a cobra é só uma metáfora bobinha e totalmente reveladora, pelo menos para mim. (se é reveladora então é totalmente. Certo pleonasmo? Sei lá). Não é possível viver bem, ter boa relação pensando que tudo é cobra. O Homem é reflexo do amor de DEUS, não tem como amar um e ignorar o outro, eu amo a DEUS. Seria incoerente colocar todas as pessoas num só patamar. Por isso faço o exercício contrario aos pensamentos automáticos (isso é tão psicologia comportamental) de que todo Homem é mal, podem até ser, mas creio
Não tenho raiva do tigre, nunca o amaldiçoei por me levar o frango do almoço porque estava agindo exatamente como um cão agiria. Ele marcou minha infância, tenho saudades dele. Viveu 12 anos, mais da metade da minha vida. E quando ele se foi, eu o deixei ir, muito triste, mas eu o deixei ir. Eu havia perdoado.
Perdão é isso, deixar ir. E fazer de uma experiência ruim um livro de sabedoria. (nunca deixar o frango na pia nos fundo, o Tigre vai abocanhá-lo), não confundir atos isolados como determinações. Então para o cão perdoar seria entender que a cobra deve ir, deixar essa cobra é parar de confundi-la com lingüiça.
E quando esse cão voltar a se atrever entrar na casa e avançar sobre a sacola na mesa onde a lingüiça está dando sopa, ele estará demonstrando que perdoou... e o que a cobra tem a ver com isso? Nada, estava agindo exatamente como uma cobra agiria.
Tigre, saudades.

